Office Hours

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Published 10/18/2026
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Às oito e vinte da noite, Kyle já havia revisado o mesmo parágrafo tantas vezes que começava a desconfiar da própria capacidade de interpretação.

O expediente de Anne tinha terminado havia algum tempo, mas ela não aparecera em seu escritório. Ele sabia que ela ainda estava na empresa, pois, em uma das poucas vezes em que se levantara para buscar um documento, vira movimento na sala dos estagiários. Mesmo assim, não mandara outra mensagem. Depois de passar o dia inteiro tentando convencê-la a reservar alguns minutos para ele, não pretendia transformar a espera em uma cobrança.

Além disso, conhecia Anne o suficiente para desconfiar de que aquela demora não era inteiramente acidental.

Às oito e vinte e três, recebeu uma mensagem.

Anne: Você ainda está trabalhando?

Kyle pegou o celular imediatamente.

Kyle: Estou. Por quê?

Anne: Pergunta por educação ou você realmente pretende me fazer trabalhar mais?

Kyle: Depende. A funcionária em questão está disposta a cumprir a hora extra?

Anne: Talvez. Mas preciso saber se ainda tem gente aí.

O sorriso que começava a surgir no rosto dele desapareceu, substituído por uma compreensão quase imediata. Kyle olhou para a porta do escritório e depois para o corredor silencioso do andar executivo.

Kyle: Ainda tem algumas pessoas em outros setores. Por quê?

Dessa vez, Anne respondeu por ligação.

Ele atendeu no primeiro toque.

— Oi, amor.

— Oi. — A voz dela chegou baixa, embora não parecesse preocupada. — Você sabe se o pessoal do financeiro já foi embora? E o pessoal do marketing? Na verdade, qualquer pessoa que ainda esteja circulando por aí.

Kyle endireitou-se na cadeira.

— Anne, o que você está planejando?

— Estou fazendo uma pergunta perfeitamente razoável.

— Você acabou de me ligar para descobrir se a empresa está vazia antes de vir ao meu escritório. Acho que podemos dispensar a parte em que fingimos que isso é uma pesquisa administrativa.

Ele ouviu uma risadinha do outro lado.

— Eu só quero saber se posso subir sem encontrar ninguém pelo caminho.

A resposta tornou tudo bastante claro. Anne não estava simplesmente atrasada, nem tinha esquecido a combinação entre os dois. Estava esperando que a Blackwood Media esvaziasse por completo antes de aparecer diante dele.

Kyle passou a língua pelo lábio inferior, contendo um sorriso.

— Você está me dizendo que passou o dia inteiro trabalhando a poucos metros de mim e agora pretende esperar até não haver mais ninguém no prédio para vir me ver?

— Estou dizendo que prefiro não encontrar funcionários passeando pelos corredores enquanto vou cumprir uma hora extra com o CEO.

— Uma preocupação muito profissional.

— Aprendi com você.

Kyle riu baixo, apoiando um cotovelo na mesa.

— Ainda não está vazio, amor. Normalmente, o pessoal termina de sair por volta das oito e meia. Posso conferir antes de você subir.

— Não precisa. Eu espero mais um pouquinho.

— Onde você está?

— Lá embaixo.

— Anne.

— O quê?

— Você já está aqui?

— Estou.

Ele fechou os olhos por um instante, tentando decidir se ficava mais satisfeito por ela ter voltado ou se reclamava por ela ter passado tanto tempo evitando encontrá-lo.

— E você não podia ter me avisado?

— Podia. Mas aí você ia ficar me perguntando se eu já estava subindo a cada dois minutos.

Kyle abriu a boca para contestar, mas não encontrou uma resposta convincente. Anne conhecia seus defeitos com uma precisão inconveniente.

— Você está ficando muito convencida, Evans.

— E você está demorando para responder à minha pergunta. Já posso subir?

Ele consultou o relógio. Oito e vinte e sete.

— Ainda não. Me dá três minutos.

— Três minutos de verdade ou três minutos no seu conceito de tempo?

— Três minutos de verdade.

— Está bem. Vou esperar.

Antes de desligar, Kyle ainda conseguiu perguntar:

— Você jantou?

— Ainda não. Vou comer quando terminar minha hora extra.

— Anne, você não precisa—

— Kyle, eu trouxe comida. Não se preocupe. — A voz dela ganhou um tom divertido. — E, antes que pergunte, não, não estou esperando aqui fora com fome desde o almoço. Saí há pouco para buscar meu jantar e voltei. Só estou esperando a empresa esvaziar.

A informação fez com que ele olhasse novamente para a porta, como se pudesse enxergá-la através das paredes.

— Você saiu da empresa e voltou só para ter certeza de que não encontraria ninguém?

— Exatamente.

Kyle soltou uma risada incrédula.

— Você realmente planejou isso.

— Claro que planejei. Não sou eu quem está há duas semanas contando as horas, senhor Blackwood?

Ele ficou em silêncio por um segundo. Anne não precisava ter dito aquilo. O simples fato de ela ter se lembrado, de ter organizado a própria noite para encontrá-lo quando estivessem sozinhos, já era suficiente para fazer a expectativa ganhar outra dimensão.

— Você não faz ideia do quanto eu esperei por este momento — respondeu, a voz mais baixa.

Do outro lado, a provocação dela perdeu um pouco da leveza.

— Faço, sim.

Aquelas duas palavras foram suficientes para que Kyle esquecesse o relatório aberto diante de si.

— Então me dê mais três minutos — pediu ele. — Vou garantir que você consiga chegar até aqui sem encontrar ninguém.

— Está bem. Até já.

A ligação terminou.

Kyle se levantou imediatamente, embora ainda faltassem alguns minutos para o horário que tinham combinado. Conferiu as mensagens de trabalho, encerrou o que ainda precisava encerrar no computador e saiu para verificar o andar. Algumas salas já estavam apagadas; em outras, os últimos funcionários guardavam suas coisas e se despediam. Ele não tinha a intenção de apressar ninguém, mas tampouco precisava fingir que não estava esperando pela partida de cada pessoa.

Às oito e meia, o último funcionário que ele viu deixou o corredor. Kyle aguardou mais um pouco, verificou os espaços próximos ao escritório e voltou para dentro, fechando a porta.

Pegou o celular.

Kyle: Pode subir, amor. Está vazio.

A resposta chegou quase imediatamente.

Anne: Estou indo.

Kyle deixou o aparelho sobre a mesa e ficou de pé, incapaz de se acomodar outra vez. Durante o dia, imaginara inúmeras vezes o momento em que finalmente estariam juntos, mas agora, sabendo que Anne estava a caminho e que ninguém os interromperia, toda aquela espera parecia se concentrar nos poucos segundos que faltavam.

Ouviu passos no corredor.

A maçaneta se moveu, e a porta se abriu devagar.

Anne entrou com uma sacola de comida em uma das mãos e a bolsa pendurada no ombro. Fechou a porta atrás de si, conferiu por um instante se ela estava bem encostada e só então se virou para ele.

O olhar dos dois se encontrou.

Kyle não disse nada de imediato. Depois de passar o dia inteiro sem conseguir vê-la direito, queria guardar aquele primeiro instante sem desperdiçá-lo com uma provocação qualquer. Seus olhos percorreram o rosto dela, demorando-se nos cabelos, na expressão e no sorriso discreto que começava a surgir.

Era ridículo o quanto sentira falta de simplesmente olhar para Anne sem precisar se contentar com uma fotografia na tela do celular ou com a lembrança de um encontro anterior.

Ela ergueu a sacola.

— Trouxe meu jantar.

Kyle finalmente sorriu.

— Que bom. Eu estava preocupado com a possibilidade de você ter vindo aqui para morrer de fome.

— Você é muito dramático.

— E você me deixou o dia inteiro sem a menor oportunidade de ver a minha namorada.

Anne apoiou a sacola sobre uma das cadeiras, sem tirar os olhos dele.

— Eu estava trabalhando.

— Eu sei.

— E você também deveria estar trabalhando, em vez de ficar contando quantas vezes eu apareci na sua sala.

— Você não apareceu nenhuma vez.

— Exatamente.

Kyle soltou uma risada curta e deu a volta na mesa, parando diante dela. A proximidade fez o sorriso de Anne suavizar, embora ela ainda mantivesse aquele ar de quem não pretendia facilitar as coisas só porque finalmente estavam sozinhos.

Ele ergueu a mão e afastou delicadamente uma mecha de cabelo do rosto dela, deixando os dedos repousarem por um instante junto à sua bochecha.

— Posso cumprimentar minha funcionária agora ou preciso preencher algum formulário?

Anne inclinou a cabeça, fingindo considerar a pergunta.

— Depende. O cumprimento faz parte das minhas atribuições profissionais?

— Não. Esse é um benefício exclusivo da minha namorada.

— Ah, nesse caso...

Ela não terminou a frase. Em vez disso, segurou a lapela do paletó dele e diminuiu a distância entre os dois, deixando claro que não tinha esperado até as oito e meia apenas para conversar.

Kyle sorriu contra os lábios dela quando Anne se aproximou, mas não tentou prolongar a provocação. Depois de duas semanas respeitando os limites que ela havia estabelecido, queria que aquele primeiro beijo fosse uma escolha dos dois, não uma conclusão que ele presumisse ter direito de alcançar.

E, quando Anne finalmente o beijou, ele teve a resposta de que precisava: ela também estava cansada de esperar.

O beijo começou lento, quase cauteloso, como se ambos estivessem testando a realidade daquele momento depois de tanto tempo apenas imaginando. A boca de Anne era macia contra a dele, e ele sentiu quando os dedos dela se fecharam com mais firmeza na lapela do paletó, puxando-o um pouco mais para perto. Kyle respondeu deslizando a mão da bochecha para a nuca dela, os dedos entrando no cabelo solto, e foi recompensado com um som baixo que Anne deixou escapar contra seus lábios.

Aquele som. Ele tinha esquecido como era ouvir aquele som.

O beijo se aprofundou sem pressa, mas sem hesitação. Anne inclinou a cabeça para o lado, abrindo a boca para ele, e Kyle sentiu o gosto dela, café e algo mais doce por baixo, e por um instante esqueceu onde estava, esqueceu o relatório inacabado, esqueceu os dois andares de escritórios vazios abaixo deles. Havia apenas a boca de Anne, a língua dela encontrando a sua, o calor do corpo dela através da blusa fina.

Ele a puxou pela cintura, aproximando-a até que não houvesse mais espaço entre os dois. Anne se encaixou contra ele sem resistência, uma mão subindo para o ombro dele, a outra ainda agarrada ao paletó como se precisasse de algo para ancorá-la. Kyle mordeu de leve o lábio inferior dela, e Anne respondeu com um beijo mais urgente, mais faminto, e ele entendeu que a cautela tinha durado o suficiente.

— Duas semanas — murmurou ele contra a boca dela, entre um beijo e outro. — Duas semanas, Anne.

— Eu sei.

— Você me deixou esperando duas semanas.

— Você sobreviveu.

Kyle riu, mas a risada morreu quando Anne beijou o canto da boca dele, depois o queixo, depois o ponto logo abaixo da orelha que ela sabia exatamente onde encontrar. Ele fechou os olhos, sentindo os lábios dela na pele do pescoço, e a mão que estava na cintura dela desceu um pouco mais, parando no quadril, os dedos pressionando o tecido da saia.

— Você está usando saia — observou ele, a voz rouca.

Anne se afastou o suficiente para olhá-lo, os olhos escuros com um brilho que ele conhecia bem.

— Estou.

— Foi acidental?

— Não.

Kyle soltou o ar devagar. A resposta dela, simples e direta, mandou um jorro de calor direto para o baixo-ventre. Anne sabia o que estava fazendo. Tinha planejado tudo, da espera até a roupa, e agora estava ali, olhando para ele com aquela expressão que dizia que a paciência dela também tinha limites.

— Você é perigosa — disse ele.

— Você me disse isso uma vez.

— E continuo certo.

Anne sorriu, aquele sorriso lento que começava nos lábios e chegava aos olhos, e Kyle soube que estava perdido. Ele a beijou outra vez, sem a lentidão de antes, e as mãos dela subiram para o rosto dele, segurando-o enquanto o beijo se tornava mais profundo, mais desordenado. Ele a guiou de volta até a mesa, e Anne se sentou na beirada sem largá-lo, as pernas se abrindo para que ele ficasse entre elas.

A saia subiu um pouco com o movimento, e Kyle viu a pele da coxa dela, pálida contra o tecido escuro da mesa. Ele apoiou as mãos de cada lado do corpo dela, inclinando-se para beijá-la outra vez, e Anne o puxou pela gravata, desfazendo o nó com dedos ágeis.

— Você está ansiosa — provocou ele.

— Você está reclamando?

— Nunca.

A gravata cedeu, e Anne a puxou pelo colarinho, abrindo o primeiro botão da camisa dele. Depois o segundo. Kyle deixou que ela fizesse o que quisesse, ocupado demais beijando a curva do pescoço dela, o ponto atrás da orelha, a linha do maxilar. Anne inclinou a cabeça para trás, oferecendo mais pele, e ele aceitou o convite, traçando um caminho de beijos descendo pela garganta dela até a clavícula.

— Kyle — disse ela, a voz um pouco sem fôlego.

— Hm?

— A porta.

Ele parou por um instante, erguendo a cabeça. Olhou para a porta do escritório, depois para Anne, que o observava com as pupilas dilatadas e as bochechas coradas.

— Está trancada?

— Não sei. Você trancou?

Kyle pensou por um segundo. Não lembrava de ter trancado. Tinha fechado a porta quando voltou para dentro, mas não tinha girado a chave. A perspectiva de alguém entrar, de um funcionário esquecido aparecer no corredor, de qualquer pessoa ver Anne sentada na mesa dele com a blusa amassada e a saia subida, atravessou seu cérebro como um choque.

Ele se afastou o suficiente para chegar à porta, e Anne riu baixo ao ver a pressa com que ele atravessou a sala. Kyle girou a chave, conferiu se estava realmente trancada, e voltou. Anne ainda estava sentada na mesa, mas tinha tirado o paletó e deixado cair sobre a cadeira. A blusa branca estava aberta no colarinho, e ele conseguia ver a curva do sutiã por baixo do tecido.

— Melhor? — perguntou ela.

— Muito melhor.

Kyle voltou para entre as pernas dela, mas dessa vez não a beijou de imediato. Ficou parado por um momento, olhando para ela. Anne Evans, a estagiária que tinha entrado na Blackwood Media seis meses antes com um currículo impecável e uma expressão de quem não tinha tempo para bobagens. Anne Evans, que o tinha olhado nos olhos no primeiro dia e dito que não precisava de favores. Anne Evans, que agora estava sentada na mesa dele com os lábios inchados de tanto beijá-lo e os olhos escuros de desejo.

Ele ainda não sabia como tinha acontecido. Como aquela mulher, que o desafiava em cada reunião e não deixava passar uma única oportunidade de apontar quando ele estava errado, tinha se tornado a pessoa que ele mais queria ver no fim do dia. Mas não importava. Ela estava ali.

— O que foi? — perguntou Anne, e a voz dela perdeu um pouco da provocação.

— Nada.

— Você está me olhando.

— Estou.

— Por quê?

Kyle ergueu a mão e tocou o rosto dela, o polegar deslizando pela maçã do rosto, pela linha do maxilar, pelo canto da boca.

— Porque eu quero.

Anne não respondeu. Mas os olhos dela mudaram, algo mais suave por baixo do desejo, e ela virou o rosto para beijar a palma da mão dele. Foi um gesto pequeno, quase casual, mas Kyle sentiu no peito como se ela tivesse dito algo muito maior.

Ele a beijou de novo, e dessa vez não houve pausa. Anne deslizou as mãos por dentro da camisa dele, empurrando o tecido para baixo dos ombros, e Kyle ajudou, tirando a camisa e deixando-a cair no chão. As mãos dela percorreram o peito dele, os dedos traçando o contorno dos músculos, e ele sentiu as unhas arranhando de leve a pele quando Anne o puxou mais para perto.

— Você está de saia — repetiu ele, contra a boca dela.

— Já disse que sim.

— E isso foi para mim?

Anne riu, um som baixo e quente.

— Você quer que eu diga que sim?

— Quero.

Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a olhá-la.

— Foi para você. Passei o dia inteiro pensando nisso. Em você. Em como seria quando finalmente estivéssemos sozinhos.

Kyle sentiu o sangue correr mais rápido nas veias.

— E como você imaginou?

— Não vou te contar.

— Anne.

— Você vai ter que descobrir.

Ele sorriu, um sorriso lento que era mais uma promessa do que qualquer outra coisa.

— Está bem.

Kyle deslizou as mãos pelas pernas dela, subindo devagar, sentindo a pele quente sob os dedos. A saia estava dobrada sobre as coxas, e ele a empurrou um pouco mais para cima, revelando mais pele, o contorno da calcinha por baixo do tecido fino da meia-calça. Anne respirou fundo quando os dedos dele chegaram à parte interna da coxa, e ele sentiu o tremor que percorreu o corpo dela.

— Você está tremendo — observou ele.

— Estou com frio.

— Não está, não.

Anne o olhou com uma mistura de irritação e desejo.

— Você é insuportável.

— E você está sentada na minha mesa com a saia levantada. Acho que podemos concordar que nenhum dos dois está em posição de julgar o outro.

Ela abriu a boca para responder, mas Kyle escolheu aquele momento para deslizar a mão mais para cima, e a resposta de Anne se transformou em um suspiro. Ele a beijou enquanto os dedos encontravam o tecido da calcinha, pressionando de leve, e sentiu o corpo dela reagir, o quadril se movendo contra a mão dele quase involuntariamente.

— Kyle — disse ela, a voz falhando.

— Hm?

— Não para.

Ele não tinha intenção de parar.

Kyle puxou a saia para cima, e Anne levantou o quadril para ajudá-lo, permitindo que ele a tirasse completamente. A saia foi para o chão, junto com a camisa dele, e ele ficou por um momento apenas olhando para ela. Anne estava sentada na beirada da mesa, com a blusa aberta e a meia-calça preta, o cabelo solto caindo sobre os ombros, os olhos fixos nele. Havia algo de vulnerável naquela imagem, apesar da confiança que ela exalava.

— Você está bonita — disse ele.

— Só bonita?

— Linda. Maravilhosa. A mulher mais bonita que eu já vi sentada na minha mesa.

— Isso é um critério muito específico.

— Eu tenho muitos critérios.

Anne riu, mas a risada morreu quando ele se ajoelhou diante dela.

— O que você está fazendo?

Kyle não respondeu. Em vez disso, deslizou as mãos pelas pernas dela outra vez, subindo devagar, beijando a pele da coxa enquanto avançava. Anne prendeu a respiração, as mãos agarrando a beirada da mesa. Ele beijou o lado interno da coxa, depois o outro, sentindo o cheiro dela, o calor, a tensão nos músculos sob a pele.

— Kyle.

— Sim?

— Você não precisa...

— Eu sei.

Ele ergueu a cabeça o suficiente para olhá-la.

— Você quer que eu pare?

Anne mordeu o lábio. Os olhos dela estavam escuros, quase negros, e o peito subia e descia rápido sob a blusa aberta.

— Não.

— Então deixa eu.

Ela assentiu, um movimento quase imperceptível, e Kyle voltou a atenção para o que estava fazendo. Ele beijou a parte interna da coxa dela, subindo mais, e quando chegou à borda da calcinha, puxou o tecido fino da meia-calça para baixo com os dedos, devagar, sentindo Anne se contorcer sob o toque.

— Levanta um pouco — pediu ele.

Anne obedeceu, e ele deslizou a meia-calça e a calcinha pelas pernas dela, tirando as duas de uma vez. O tecido foi para o chão, e Anne ficou completamente exposta diante dele, as pernas abertas, a respiração curta.

Kyle ficou parado por um momento, apenas olhando. Havia algo de hipnotizante naquela visão, Anne Evans, que ele tinha visto pela primeira vez em uma sala de reuniões com um blazer cinza e uma expressão de quem não tolerava desculpas, agora sentada na mesa dele, com as pernas abertas e o rosto corado, esperando por ele.

— Você está me olhando de novo — disse ela.

— Você é muito bonita de olhar.

— Kyle...

— O quê?

— Para de me olhar e faz alguma coisa.

Ele sorriu.

— Você está dando ordens agora?

— Estou pedindo. Educadamente.

— Isso foi educado?

Anne soltou uma risada que terminou em um suspiro quando ele finalmente se inclinou e a beijou. O primeiro toque da boca dele fez o corpo dela arquear, as mãos voando para o cabelo dele, os dedos se fechando nos fios escuros. Kyle sentiu o gosto dela, quente e salgado, e fechou os olhos, concentrando-se no que estava fazendo, no que fazia Anne gemer e apertar as coxas ao redor da cabeça dele.

Ela era responsiva. Sempre tinha sido. Kyle lembrava da primeira vez, no apartamento dela, quando tinha descoberto que Anne Evans, que mantinha tudo sob controle, que nunca deixava transparecer nada que não quisesse, se desfazia completamente sob o toque certo. Era como se o corpo dela guardasse tudo o que a mente se recusava a admitir.

Ele passou a língua por ela, devagar, e Anne arqueou as costas, um gemido escapando dos lábios.

— Ah, meu Deus.

Kyle sorriu contra ela, satisfeito, e repetiu o movimento. Anne puxou o cabelo dele, as pernas tremendo, e ele teve que segurar o quadril dela com uma das mãos para mantê-la no lugar. A outra mão subiu pelo corpo dela, por baixo da blusa, encontrando o sutiã e puxando o tecido para baixo para liberar o seio.

— Kyle — ofegou ela. — Kyle, espera.

Ele parou imediatamente, erguendo a cabeça.

— O que foi?

— Nada. Só... — Anne respirou fundo, tentando se recompor. — Só me dá um segundo.

Kyle se levantou, limpando a boca com as costas da mão, e olhou para ela. Anne estava corada, o cabelo bagunçado, a blusa aberta e o sutiã torto. Ela parecia exatamente o oposto da mulher controlada que ele conhecia, e a visão dela naquele estado fez algo se apertar no peito dele.

— Você está bem? — perguntou ele.

— Estou. — Anne riu, um pouco sem fôlego. — Estou mais do que bem. Só preciso de um minuto para não... você sabe.

— Para não quê?

— Para não terminar antes de você.

Kyle sentiu o sorriso se formar no rosto.

— Isso é uma preocupação?

— É uma questão de princípios.

— Ah, princípios.

Anne o puxou pela cintura, trazendo-o para perto.

— Você está muito satisfeito consigo mesmo.

— Eu tenho motivos.

Ela o beijou, e Kyle sentiu o próprio gosto na boca dela, o que deveria ter sido estranho, mas não era. Era íntimo de uma forma que ele não tinha esperado, e quando Anne deslizou as mãos para o cós da calça dele, desabotoando o botão e puxando o zíper, ele soube que o minuto de pausa tinha terminado.

— Sua vez — disse ela.

Kyle não precisou de mais convite. Ele se livrou da calça e da cueca com uma eficiência que fez Anne rir, e depois ficou de pé diante dela, completamente exposto, enquanto ela o olhava com uma expressão que ele não conseguia decifrar completamente.

— O que foi? — perguntou ele.

— Nada.

— Você está me olhando.

— Você também me olhou.

— Justo.

Anne estendeu a mão, os dedos envolvendo o membro dele, e Kyle fechou os olhos, um som baixo escapando da garganta. A mão dela era firme, o movimento lento, e ele teve que se concentrar para não se perder ali mesmo.

— Anne.

— Hm?

— Se você continuar assim, isso vai acabar antes de começar.

Ela riu, mas soltou.

— Não queremos isso.

— Definitivamente não.

Kyle a beijou outra vez, empurrando-a de volta contra a mesa, e Anne abriu as pernas para ele, envolvendo a cintura dele com as coxas. Ele a sentiu quente e úmida contra ele, e por um momento ficou parado, apenas sentindo a proximidade, a respiração dela contra a sua boca, o coração batendo rápido demais.

— Você tem camisinha? — perguntou Anne.

Kyle piscou.

— Na carteira.

— Então vai pegar.

Ele riu, mas obedeceu, atravessando a sala para pegar a carteira no paletó que tinha ficado na cadeira. Quando voltou, Anne tinha tirado a blusa completamente e estava trabalhando no sutiã. Kyle parou para assistir, porque Anne Evans tirando o sutiã era uma visão que merecia atenção.

— Você vai ficar aí parado? — perguntou ela, sem olhar para cima.

— Estou apreciando.

— Você é impossível.

— E você está demorando.

Anne finalmente conseguiu se livrar do sutiã e jogou a peça na direção dele. Kyle pegou no ar com uma mão, rindo, e se aproximou outra vez, abrindo o pacote da camisinha com os dentes.

— Isso é muito sexy — comentou Anne.

— Cala a boca.

— Faz você mesmo.

Ele a beijou para fazê-la parar de falar, e Anne riu contra a boca dele, as mãos subindo para os ombros, as unhas arranhando de leve. Kyle terminou de colocar a camisinha e a puxou pela cintura, aproximando-a da beirada da mesa.

— Pronta? — perguntou ele.

Anne o olhou nos olhos.

— Pronta.

Ele entrou devagar, e os dois soltaram o ar ao mesmo tempo. Anne fechou os olhos, a cabeça caindo para trás, e Kyle teve que fazer um esforço para não se mover imediatamente. Ela era quente e apertada ao redor dele, e o corpo dela se ajustava ao dele de uma forma que fazia tudo o mais desaparecer.

— Anne — disse ele, a voz rouca.

— Eu sei.

— Olha para mim.

Ela abriu os olhos, e Kyle se perdeu naquele olhar. Havia desejo ali, e algo mais, algo que ele não conseguia nomear mas que reconhecia. Ele começou a se mover, devagar, e Anne respondeu, o quadril encontrando o dele, as pernas apertando ao redor da cintura.

A mesa rangeu sob eles.

— A mesa — disse Anne, entre um gemido e outro.

— O que tem a mesa?

— Vai quebrar.

— Não vai.

— Como você sabe?

— Porque eu paguei caro por ela.

Anne riu, mas a risada se transformou em um gemido quando ele acelerou o ritmo. Kyle segurou o quadril dela com as duas mãos, puxando-a para mais perto, e Anne se apoiou nos cotovelos, o corpo arqueado, os seios balançando com o movimento.

— Kyle — ofegou ela.

— Hm?

— Mais.

Ele obedeceu. O ritmo aumentou, mais rápido, mais profundo, e Anne parou de falar, os olhos fechados, a boca aberta, os sons que escapavam dela cada vez mais altos. Kyle abaixou a cabeça para beijar o pescoço dela, o ombro, a curva do seio, e Anne enterrou as unhas nas costas dele, deixando marcas que ele não se importaria de ter.

— Não para — disse ela, a voz quebrada.

— Não vou parar.

— Promete?

— Prometo.

Ela o puxou para um beijo, desesperado, e Kyle sentiu quando o corpo dela começou a tremer, os músculos se contraindo ao redor dele. Anne arqueou as costas, um gemido longo escapando dos lábios, e ele a segurou firme, continuando a se mover enquanto ela se desfazia, o rosto enterrado no ombro dele.

Quando Anne finalmente relaxou, Kyle ainda não tinha terminado. Ele diminuiu o ritmo, deixando-a respirar, mas Anne o olhou com olhos vidrados e disse:

— Não para.

— Você acabou de...

— Eu sei. Não para.

Ele riu, mas obedeceu. Anne o puxou para perto, envolvendo-o completamente, e Kyle se perdeu no calor dela outra vez. O ritmo voltou a aumentar, mais urgente agora, e ele sentiu o próprio corpo respondendo, o prazer se acumulando na base da espinha.

— Anne — disse ele, a voz tensa.

— Vai.

— Eu...

— Vai, Kyle.

Ele foi.

O orgasmo o atingiu como uma onda, e Kyle segurou Anne com força, o rosto enterrado no cabelo dela, o corpo tremendo. Por um momento, não havia nada além do prazer, a mulher nos braços dele, o som da respiração dos dois misturado no silêncio do escritório.

Quando finalmente conseguiu se mover, Kyle se afastou o suficiente para olhar para Anne. Ela estava corada, suada, o cabelo colado ao rosto, e sorria.

— O que foi? — perguntou ele.

— A mesa não quebrou.

Kyle riu, uma risada cansada e satisfeita.

— Eu te disse.

— Você disse que pagou caro por ela.

— E paguei.

Anne o puxou para um beijo, mais suave agora, quase carinhoso.

— Você está bem? — perguntou ela.

— Estou ótimo.

— Não está com dor nas costas?

— Por que eu estaria com dor nas costas?

— Porque você me pegou em cima de uma mesa. Não é exatamente a posição mais ergonômica.

Kyle riu outra vez, apoiando a testa na dela.

— Você acabou de me fazer um dos melhores orgasmos da minha vida e está preocupada com a minha postura?

— Alguém tem que se preocupar.

— Você é impossível.

— Você me disse isso antes.

— E continuo certo.

Anne sorriu, e Kyle sentiu algo se acomodar no peito. Ele não queria se afastar. Não queria voltar para o relatório, para os e-mails, para o mundo lá fora. Queria ficar ali, com Anne, na mesa do escritório, pelo resto da noite.

Mas o estômago dela roncou.

Anne congelou.

Kyle ergueu a cabeça, olhando para ela.

— Você está com fome.

— Não estou.

— Seu estômago acabou de dizer o contrário.

— Meu estômago não tem credibilidade.

— Anne.

— Está bem, estou com fome. Mas isso não significa que eu quero parar.

Kyle riu e se afastou, tirando a camisinha e jogando no lixo. Anne ficou sentada na mesa, observando-o, e ele pegou a sacola de comida que ela tinha trazido.

— O que você trouxe? — perguntou ele.

— Comida.

— Muito específico.

— Sanduíche. E uma salada. E talvez um pedaço de bolo.

— Talvez?

— Eu não tinha certeza de quanto tempo ia ficar.

Kyle abriu a sacola e olhou dentro.

— Você trouxe comida para duas pessoas.

— Eu não sabia se você tinha jantado.

Ele parou, olhando para ela. Anne estava sentada na mesa, nua, com o cabelo bagunçado e as bochechas coradas, e tinha trazido comida suficiente para os dois porque não sabia se ele tinha comido.

— O que foi? — perguntou ela, e havia uma nota de incerteza na voz.

Kyle deixou a sacola de lado e se aproximou, parando diante dela.

— Nada.

— Você está me olhando.

— Estou.

— Por quê?

Ele ergueu a mão e tocou o rosto dela, o polegar deslizando pela bochecha.

— Porque eu gosto de você.

Anne piscou.

— Isso é... uma coisa estranha de dizer agora.

— É?

— Depois do que a gente acabou de fazer, "eu gosto de você" parece meio... insuficiente.

Kyle riu.

— Está bem. Eu gosto muito de você.

— Melhor.

— E você?

Anne inclinou a cabeça, fingindo considerar.

— Eu tolero você.

— Anne.

— Está bem. Eu gosto de você também.

— Muito?

— O suficiente para trazer comida.

Kyle a beijou, e Anne sorriu contra os lábios dele.

— Vamos comer — disse ela, empurrando-o de leve. — Antes que eu desmaie.

— Você não vai desmaiar.

— Você não sabe disso.

— Eu sei que você é mais forte do que parece.

— Isso é um elogio?

— É uma observação.

Anne desceu da mesa, e Kyle pegou a blusa dela do chão, entregando-a. Ela vestiu a peça sem se preocupar em fechar os botões, e Kyle teve que fazer um esforço para não a puxar de volta para a mesa.

— Você está me olhando de novo — disse ela.

— Você está sem sutiã.

— E?

— E eu sou um homem fraco.

Anne riu.

— Come o sanduíche, Kyle.

Ele obedeceu, sentando-se na cadeira atrás da mesa enquanto Anne se acomodava na cadeira do outro lado, com a sacola de comida entre os dois. Ela tirou os sanduíches, a salada, os dois pedaços de bolo, e Kyle observou enquanto ela organizava tudo, o movimento preciso de quem estava acostumada a cuidar de si mesma.

— Você sempre traz comida quando vai ver alguém? — perguntou ele.

— Só quando não sei se a pessoa vai me alimentar.

— Eu ia te alimentar.

— Com o quê?

Kyle pensou por um segundo.

— Eu tenho uma barra de cereal na gaveta.

Anne o olhou com uma expressão de descrença.

— Uma barra de cereal.

— É de amêndoas.

— Ah, nesse caso.

— Você está zombando de mim.

— Estou.

Kyle pegou metade do sanduíche e deu uma mordida, observando Anne fazer o mesmo. Eles comeram em silêncio por um momento, e Kyle percebeu que estava com mais fome do que imaginava. Tinha pulado o almoço, distraído demais pensando em Anne, e agora o sanduíche parecia a melhor coisa que ele tinha comido em semanas.

— Você pulou o almoço — disse Anne, como se pudesse ler seus pensamentos.

— Como você sabe?

— Porque você come como se não visse comida há dias.

— Eu estava ocupado.

— Fazendo o quê?

— Pensando em você.

Anne parou de mastigar, olhando para ele.

— Isso é muito patético.

— Eu sei.

— E um pouco fofo.

— Só um pouco?

— Não força.

Kyle riu e terminou o sanduíche, pegando o segundo. Anne o observou por um momento, depois pegou a salada e começou a comer.

— Você não vai comer o bolo? — perguntou ele.

— Vou. Só estou guardando para o final.

— Isso é muito calculado.

— Eu sou uma pessoa calculada.

— Eu sei. É uma das coisas que eu gosto em você.

Anne ergueu uma sobrancelha.

— O que mais?

— Você quer uma lista?

— Quero.

Kyle terminou o sanduíche e se recostou na cadeira, olhando para ela.

— Eu gosto que você não tem medo de me dizer quando eu estou errado. Gosto que você trabalha mais do que qualquer pessoa que eu conheço. Gosto que você se importa com as coisas, mesmo quando finge que não. Gosto que você trouxe comida para mim mesmo sem saber se eu ia estar aqui. Gosto que você ri das minhas piadas, mesmo quando elas não são boas. Gosto que você me olha como se pudesse me ver de verdade, não só o CEO da Blackwood Media. E gosto que você está sentada na minha frente agora, com a minha camisa aberta, comendo salada, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

Anne ficou em silêncio por um momento.

— Isso foi... muita coisa.

— Você pediu.

— Eu sei. Mas eu não esperava que você fosse responder de verdade.

— Por que não?

— Porque você é você.

Kyle franziu a testa.

— O que isso significa?

— Significa que você é o Kyle Blackwood. Você não fala sobre sentimentos. Você não faz listas de coisas que gosta nas pessoas. Você é... — Anne gesticulou com o garfo. — Você.

— E isso me impede de gostar de você?

— Não. Mas me surpreende.

Kyle olhou para ela, e algo na expressão de Anne fez o peito dele apertar. Havia uma vulnerabilidade ali, escondida atrás da provocação, como se ela não soubesse o que fazer com a possibilidade de que ele realmente se importasse.

— Anne.

— Hm?

— Eu não estou brincando.

— Eu sei.

— Você sabe mesmo?

Ela o olhou nos olhos.

— Sei.

— Então por que você parece surpresa?

Anne deixou o garfo de lado.

— Porque eu passei muito tempo achando que isso aqui era... uma coisa temporária. Uma coisa que ia acabar quando você se cansasse. E agora você está me dizendo que gosta de coisas específicas sobre mim, e eu não sei o que fazer com isso.

Kyle se levantou da cadeira e deu a volta na mesa, parando ao lado dela.

— Você acha que eu vou me cansar?

— Eu acho que você é um homem que tem tudo. E eu sou uma estagiária.

— Você é a mulher mais inteligente que eu já conheci.

— Isso não muda o fato de que eu trabalho para você.

— Não por muito tempo.

Anne ergueu a cabeça.

— O que isso significa?

Kyle hesitou. Não era o momento. Não era o lugar. Mas Anne estava olhando para ele com aquela expressão, e ele não queria mentir.

— Significa que eu estou pensando em algumas coisas.

— Que coisas?

— Coisas que eu não posso falar agora.

— Por quê?

— Porque você está nua na minha frente e eu estou tentando não te levar de volta para a mesa.

Anne riu, mas os olhos dela permaneceram sérios.

— Kyle.

— Anne.

— Você está me assustando.

Ele se agachou ao lado da cadeira, ficando na altura dos olhos dela.

— Eu não quero te assustar.

— Então o que você quer?

— Eu quero você. Só isso. Eu quero você, e eu não sei exatamente o que isso significa ainda, mas eu sei que não é temporário. Eu sei que não é uma coisa que vai acabar quando eu me cansar, porque eu não vou me cansar. Eu passei duas semanas sem te ver direito e foi uma merda. Eu passei o dia inteiro pensando em você em vez de trabalhar. Eu não faço isso. Eu nunca fiz isso. E eu não sei o que fazer com isso, mas eu não quero parar.

Anne o olhou por um longo momento.

— Está bem.

— Está bem?

— Está bem.

— Isso é tudo?

— O que você quer que eu diga?

— Eu não sei. Alguma coisa.

Anne segurou o rosto dele com as duas mãos.

— Eu não vou a lugar nenhum.

Kyle sentiu o ar sair dos pulmões.

— Promete?

— Prometo.

Ele a beijou, e foi diferente dos beijos anteriores. Mais suave, mais lento, como se os dois estivessem selando algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear ainda. Anne deslizou as mãos pelos ombros dele, e Kyle a puxou para o colo, sentando-a nas pernas dele.

— Você vai derrubar a comida — disse Anne.

— Não vou.

— Você acabou de derrubar o garfo.

— O garfo não conta.

Anne riu, e Kyle sentiu o som vibrar contra o peito dele. Ele a abraçou, o rosto enterrado no cabelo dela, e por um momento não havia nada além daquele instante, os dois ali, no escritório vazio, com a comida esquecida na mesa.

— Você tem que trabalhar amanhã — disse Anne.

— Eu sei.

— E eu também.

— Eu sei.

— Então talvez a gente deva... — Anne fez um gesto vago em direção à mesa, à comida, ao escritório.

— Talvez.

Nenhum dos dois se moveu.

— Kyle.

— Hm?

— Eu preciso ir para casa em algum momento.

— Eu sei.

— Você vai me soltar?

— Não.

Anne riu.

— Isso é muito possessivo.

— Eu sei.

— Eu gosto.

Kyle ergueu a cabeça para olhá-la.

— Você gosta?

— Gosto.

— Então eu não vou te soltar.

— Está bem.

Eles ficaram ali por mais alguns minutos, até que o estômago de Anne roncou outra vez. Kyle riu e a soltou, e Anne voltou para a cadeira, terminando a salada enquanto Kyle comia o bolo que ela tinha trazido.

— Isso é muito bom — disse ele, a boca cheia.

— Eu sei. Eu escolhi.

— Modéstia não é o seu forte.

— Nunca foi.

Kyle terminou o bolo e limpou a boca com um guardanapo. Anne estava terminando a salada, e ele a observou em silêncio, notando os detalhes que tinha aprendido a apreciar nas últimas semanas. A forma como ela segurava o garfo. A forma como inclinava a cabeça quando estava pensando. A forma como olhava para ele quando achava que ele não estava prestando atenção.

— O que foi? — perguntou Anne, sem erguer os olhos.

— Nada.

— Você está me olhando.

— Eu gosto de te olhar.

— Você já disse isso.

— Continua sendo verdade.

Anne deixou o garfo de lado e olhou para ele.

— Você está planejando alguma coisa.

— Eu estou sempre planejando alguma coisa.

— Não. Isso é diferente. Você está com aquela cara.

— Que cara?

— A cara de quem está planejando alguma coisa.

Kyle sorriu.

— Talvez eu esteja.

— O que é?

— Nada que você precise saber agora.

— Kyle.

— Anne.

Ela suspirou, mas havia um sorriso nos lábios dela.

— Está bem. Guarda seus segredos.

— Eu vou te contar. Só não hoje.

— Promete?

— Prometo.

Anne se levantou e começou a recolher a comida, jogando os restos na sacola. Kyle a observou, e quando ela terminou, ele se levantou e a puxou pela cintura.

— Você vai embora? — perguntou ele.

— Eu deveria.

— Mas?

— Mas eu não quero.

— Então fica.

— Kyle...

— Só mais um pouco.

Anne o olhou, e Kyle viu quando a resistência dela cedeu.

— Está bem. Mais um pouco.

Ela se sentou no colo dele outra vez, e Kyle a envolveu com os braços, o queixo apoiado no ombro dela. O escritório estava silencioso, apenas o som do ar-condicionado e a luz fraca do abajur sobre a mesa. Lá fora, a cidade continuava acesa, mas ali dentro, naquele momento, o mundo parecia reduzido aos dois.

— Kyle — disse Anne, depois de um tempo.

— Hm?

— Obrigada.

— Por quê?

— Por não desistir.

Ele a abraçou mais forte.

— Eu nunca ia desistir.

— Você não sabe disso.

— Eu sei.

— Como?

— Porque você é você. E eu sou eu. E isso aqui é... — Kyle hesitou, procurando as palavras. — Isso aqui é diferente.

Anne ficou em silêncio por um momento.

— Diferente como?

— Diferente de tudo que eu já tive.

Ela virou o rosto para olhá-lo.

— Isso é muita responsabilidade.

— Eu sei.

— Você está pronto para isso?

Kyle a beijou na testa.

— Estou.

Anne sorriu, e Kyle sentiu algo se acomodar no peito. Não era certeza, não exatamente. Era mais parecido com esperança. A esperança de que, pela primeira vez em muito tempo, ele tinha encontrado algo que valia a pena lutar.

— Está bem — disse Anne. — Então eu fico.

— Para sempre?

— Não exagera.

— Eu nunca exagero.

— Você exagera sempre.

— Só quando é importante.

Anne riu e se aninhou contra ele, e Kyle fechou os olhos, sentindo o peso dela nos braços, o calor do corpo dela contra o seu. Amanhã haveria trabalho, e reuniões, e a complicação de duas pessoas que trabalhavam juntas tentando descobrir como navegar isso. Mas hoje, naquele momento, não havia nada além dos dois.

E, por enquanto, isso era suficiente.



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