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Trilhos do Desejo
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Published 11/7/2026
O trem das onze e quarenta e cinco era o único que ainda fazia o trajeto naquela linha, e eu já tinha perdido ele duas vezes naquela semana. Não ia perder de novo.
Corri pela plataforma com a mochila batendo nas costas, o casaco aberto, o ar frio da noite entrando pela camisa. As portas já estavam apitando quando eu enfiei o braço entre elas e forcei a abertura. O trem rangeu, hesitou, e cedeu. Entrei tropeçando no degrau, quase caindo de cara no corredor.
O vagão estava quase vazio. Luz amarela fraca, assentos de plástico azul gastos, aquele cheiro de ferro e desinfetante que nunca sai. Um bêbado dormia com a cabeça encostada na janela, três fileiras à frente. Uma mulher de casaco vermelho lia algo no celular, o rosto iluminado pela tela. E lá no fundo, perto da porta de conexão, estava o Rafael.
Ele levantou a cabeça quando me viu. Sorriu daquele jeito dele, meio torto, meio culpado.
— Achei que você não vinha — disse ele.
— Achei que você não vinha — respondi, sentando na frente dele.
Rafael e eu nos conhecemos na faculdade, sete anos atrás, quando ele tentou me vender um ingresso falso para uma festa de calouros e eu, idiota, comprei. Desde então a gente meio que não se largou mais. Amizade estranha, dessas que não precisa de contato diário. A gente some por meses e volta como se nada tivesse acontecido. Ele é o tipo de pessoa que sempre tem um plano meio ruim, meio brilhante, e eu sou o tipo que vai junto mesmo sabendo que vai dar merda.
— Você trouxe? — perguntei baixo.
Ele olhou em volta. O bêbado roncava. A mulher de vermelho não levantou os olhos do celular.
— Trouxe. Mas não aqui. Espera o trem andar.
O trem começou a se mover com um solavanco. As luzes piscaram uma vez, duas, e depois estabilizaram. Lá fora, a plataforma deslizou para trás e sumiu na escuridão. Só ficou o reflexo do nosso vagão no vidro, duas silhuetas sentadas uma de frente para a outra.
Foi quando ela entrou.
Não vi de onde veio. Uma porta se abriu no fim do vagão e ela apareceu, andando devagar pelo corredor, segurando uma mala pequena com uma mão e o celular com a outra. Cabelo escuro, comprido, molhado talvez, ou só muito liso. Casaco cinza apertado na cintura. Saia curta. Botas até o joelho. Ela passou por nós sem olhar, e o cheiro dela ficou. Algo doce, tipo baunilha, mas com um fundo amadeirado que não combinava com o trem.
Rafael acompanhou ela com os olhos. Eu também.
Ela parou duas fileiras depois da nossa, jogou a mala no assento e sentou de lado, cruzando as pernas. Puxou o celular e ficou olhando a tela, mas dava pra ver que não estava fazendo nada. Só fingindo.
— Boa noite — disse Rafael, alto o suficiente pra ela ouvir.
Ela levantou os olhos. Olhos escuros, grandes, com aquele tipo de olhar que te mede em dois segundos e decide se você vale a pena ou não. Ela sorriu de leve.
— Boa noite.
— Viajando sozinha? — perguntou ele.
Eu chutei a canela dele por baixo do assento. Ele nem piscou.
— Por enquanto — respondeu ela.
Aquilo ficou no ar. Por enquanto. Ela voltou pro celular, mas o sorriso continuou no canto da boca.
Rafael se inclinou pra frente, os cotovelos nos joelhos.
— A gente vai até a estação final. Você também?
— Talvez.
— Talvez?
— Depende de como a noite correr.
Ela olhou pra mim dessa vez. Direto. Eu senti como se alguém tivesse acendido uma luz dentro do meu peito. Não sei explicar. Foi rápido, tipo quando você passa por um carro na estrada e por meio segundo os faróis te cegam. Só que durou mais que meio segundo.
— Eu sou o Rafael — disse ele, estendendo a mão. — Esse aí é o Diego.
Ela não apertou a mão dele. Só inclinou a cabeça.
— Prazer.
— E você? — perguntei.
— Vocês podem me chamar de Lena.
— É seu nome?
— É o nome que eu tô usando hoje.
Rafael riu. Eu não. Tinha algo na voz dela que não era brincadeira. Ela falava como quem já tinha usado outros nomes antes, e talvez fosse usar outros depois. Isso deveria ter me feito levantar e ir embora. Mas eu fiquei.
O trem balançava. A paisagem lá fora era só escuridão cortada por postes de luz a cada tanto, como flashes de uma câmera quebrada. O bêbado continuava dormindo. A mulher de vermelho tinha descido na estação anterior, eu nem vi quando.
Lena levantou e veio sentar no assento ao lado do corredor, na fileira da frente da nossa, virada pra trás. Agora a gente formava um triângulo. Ela olhando pra nós, nós olhando pra ela. A mala dela ficou lá atrás, sozinha.
— Então — disse ela. — O que dois caras bem vestidos fazem num trem vazio às quase meia-noite?
— Bem vestidos? — Rafael olhou pra própria jaqueta jeans surrada.
— Vocês têm cara de quem tá indo pra algum lugar. Ou fugindo de algum lugar.
— E você tem cara de quem sabe a diferença — falei.
Ela sorriu de verdade dessa vez. Um sorriso que mudou a geometria do rosto dela. Ficou mais bonita, e ao mesmo tempo mais perigosa.
— Eu sei a diferença — disse ela. — Vocês dois? Ainda não sei.
Rafael enfiou a mão no bolso do casaco. Eu sabia o que ele ia fazer antes de ele fazer. Conhecia ele bem demais.
— Olha — disse ele, baixando a voz. — A gente tem uma coisa. Uma coisa boa. Se você quiser experimentar.
Ele tirou o saquinho plástico do bolso. Pequeno, transparente, com uns dois gramas de pó branco dentro. Não era cocaína. Era outra coisa. Algo que ele tinha trazido de uma viagem pro sul, de um laboratório clandestino que ele conhecia por causa de um primo que trabalhava com química. Uma coisa que deixava a noite mais interessante.
Lena olhou pro saquinho. Depois olhou pra mim. Depois pro Rafael.
— Vocês são mais interessantes do que eu pensava — disse ela.
— Isso é um sim? — perguntou Rafael.
— Isso é um talvez.
Ela se levantou e sentou no assento ao lado dele. Perto. Ombro colado no ombro. Pegou o saquinho da mão dele, abriu, cheirou. Fez uma careta.
— É fraco — disse ela. — Mas serve.
— Você já usou? — perguntei.
— Já usei muita coisa. — Ela fechou o saquinho e devolveu pra ele. — Mas não aqui. Não agora.
— Quando?
— Quando a gente chegar no fim da linha.
Rafael olhou pra mim. Eu sabia o que aquele olhar queria dizer. Ele queria que eu concordasse. Queria que eu entrasse naquela com ele, como sempre. E eu queria. Deus, como eu queria. Mas tinha algo errado. Não com ela. Com a situação. Com o jeito que as coisas estavam correndo rápido demais.
— Por que a gente? — perguntei.
Lena me encarou. Os olhos escuros dela pareciam maiores agora, ou era só a luz do trem que fazia aquilo.
— Porque vocês estavam aqui — disse ela. — E porque eu não quero ficar sozinha hoje.
— Isso não é resposta.
— É a única que eu tenho.
O trem diminuiu a velocidade. Uma estação se aproximava, luzes passando pela janela. Lena olhou pra fora, e por um segundo eu vi algo no rosto dela. Medo. Ou arrependimento. Ou as duas coisas. Depois sumiu, como se ela tivesse puxado uma cortina.
— Próxima estação é a minha — disse ela. — Vocês descem comigo?
Rafael já estava se levantando. Eu continuei sentado.
— Diego — disse ele. — Vamo.
Eu olhei pro saquinho na mão dele. Olhei pra Lena, que já estava de pé, pegando a mala lá atrás. Olhei pro corredor vazio do trem, pro bêbado que continuava dormindo, pra porta que dava pro vagão seguinte.
Era só uma noite. Só uma escolha. Mas alguma coisa no meu peito dizia que não era só isso. Que aquela mulher não era só uma mulher num trem. Que o saquinho não era só um saquinho. Que a gente estava entrando em algo que não tinha volta.
O trem parou. As portas se abriram. O ar frio entrou.
Lena desceu primeiro. Rafael pulou atrás dela.
Eu fiquei parado na porta por três segundos. Três segundos que pareceram três horas. Depois desci também.
A plataforma estava vazia. Só nós três, a luz amarela fraca, e a noite lá fora, enorme e escura. O trem partiu sem a gente, e o barulho dele foi sumindo até virar silêncio.
Lena caminhou até o fim da plataforma e virou.
— Vocês têm onde ficar? — perguntou.
— A gente dá um jeito — disse Rafael.
— Eu tenho um lugar. Perto daqui.
Ela sorriu de novo. Aquele sorriso que mudava tudo.
— Vocês vêm?
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This is a work of fiction, assisted by artificial intelligence. Any names or characters, businesses or places, events or incidents, are fictitious. Any resemblance to actual persons, living or dead, or actual events is purely coincidental.
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