A Madrasta Obsessiva

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Published 8/18/2026
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Meu pai sumiu há três meses e minha madrasta não deixa nenhuma mulher chegar perto de mim.

Ela diz que é proteção. Eu sei que é outra coisa.

A casa cheira a ela agora. Antes cheirava a café e jornal, ao cigarro que meu pai fumava na varanda mesmo depois do médico proibir. Agora é perfume doce demais, vela de baunilha queimando em todo cômodo, o cabelo dela deixando rastro no ar. Eu acordo e sinto o cheiro antes de ouvir os passos. Ela já está na cozinha quando desço, vestindo o robe de seda que não esconde nada.

“Bom dia, filho.”

Filho. Ela começou a me chamar assim na semana que ele sumiu. Antes era pelo nome, quando era alguma coisa. Na maior parte do tempo ela nem me olhava.

Ela coloca um prato na minha frente. Ovo, torrada, suco de laranja. Ela sabe que eu odeio suco de laranja. Suco de laranja me dá azia desde criança. Meu pai sabia. Ela sabe também. Ela coloca mesmo assim, com um sorriso que não chega aos olhos.

“Come.”

Eu como. Não sei por que obedeço. Talvez porque ela tenha olhos de vidro, duros e bonitos, e quando ela ordena alguma coisa parece que o mundo inteiro vai se quebrar se você não fizer.

Ela fica me olhando mastigar. O robe escorrega no ombro direito. Ela não ajusta.

“Hoje você não vai sair.”

“Tenho aula.”

“Não vai.”

Ela diz isso como se fosse fato, como se o tempo já tivesse se decidido sem mim. Ela passa a mão no meu cabelo, devagar, os dedos descendo até a nuca. Eu congelo. Ela ri baixinho.

“Tão tenso. Relaxa.”

Relaxa. Como se fosse possível relaxar com a mão dela na minha pele, com o cheiro dela entrando no meu nariz, com o robe escorregando e mostrando mais do que eu quero ver.

Eu empurro a cadeira para trás. O prato tilinta. Ela não se move.

“Vou me arrumar.”

“Não demora.”

Ela diz isso do mesmo jeito que uma esposa diria. Não uma madrasta. Não a mulher do meu pai. Uma esposa.

Eu subo as escadas rápido. No quarto, fecho a porta e fico parado, respirando. Meu coração bate como se eu tivesse corrido. Não corri. Só subi quinze degraus. Quinze degraus e um corredor.

A casa é grande demais para três pessoas. Agora para duas. Meu pai comprou essa casa depois que casou com ela, dois anos atrás. Eu tinha dezessete. Agora tenho dezenove e meu pai é uma mancha no sofá, o lugar onde ele sentava e que ninguém ocupa. Ela mandou lavar a almofada na semana seguinte. Disse que precisava arejar. Eu vi ela jogar a almofada no lixo. Não lavou. Jogou fora.

Na primeira semana, eu achei que ele ia voltar. Homem não some assim, eu pensei. Homem tem contas, tem filho, tem carro no estacionamento da empresa. Mas ele sumiu. O carro estava lá. A pasta estava lá. O café na xícara estava lá, frio, com um círculo de borra no fundo. Ele não.

A polícia veio. Fizeram perguntas. Ela chorou na frente deles, lágrimas perfeitas, uma de cada vez, como se tivesse ensaiado. Eu fiquei calado. O que eu ia dizer? Que meu pai estava com medo dela? Que nas últimas semanas ele dormia no sofá, com a luz acesa? Que eu ouvia eles brigarem baixinho, a voz dele suplicando, a dela cortando como navalha?

Não disse nada.

Agora são três meses. Três meses de café da manhã com suco de laranja. Três meses de robe escorregando. Três meses de mão na nuca, de olhar demorado, de “não vai sair hoje, filho”.

Três meses sem nenhuma mulher na minha vida.

Não que eu tivesse muitas. Tinha uma. Carolina. Ela estudava comigo, cabelo cacheado e risada alta. A gente se via depois da aula, tomava sorvete, ela reclamava do professor de cálculo. Nada demais. Mas uma semana depois que meu pai sumiu, Carolina apareceu aqui em casa. Trouxe um bolo que a mãe dela fez. Disse que era para dar força.

Minha madrasta abriu a porta. Olhou para Carolina. Olhou para o bolo. Depois olhou para mim, parado atrás, e sorriu.

“Que gentileza. Mas ele não pode comer doce. Problema de estômago.”

Mentira. Meu estômago é de ferro. Carolina ficou sem graça, estendeu o bolo mesmo assim. Minha madrasta pegou, agradeceu com um sorriso gelado, e fechou a porta. Não convidou para entrar. Não deixou eu falar com ela.

No dia seguinte, o bolo estava no lixo. Inteiro. Nem um pedaço faltando.

Depois disso, Carolina parou de me mandar mensagem. Eu tentei ligar, mas o número dela estava bloqueado no meu celular. Eu não bloqueei. Alguém bloqueou.

Eu desço as escadas e ela está no sofá, lendo uma revista. As pernas cruzadas, a unha pintada de vermelho, o robe substituído por um vestido leve que marca cada curva. Ela levanta os olhos quando me vê.

“Pensei que fosse demorar mais.”

“Preciso ir ao mercado.”

“O que precisa? Eu compro.”

“Não. Preciso sair.”

Ela fecha a revista devagar. Coloca no colo. Me encara.

“Está bravo comigo?”

Não. Sim. Não sei.

“Só preciso sair.”

Ela levanta. Vem na minha direção. Para a um passo de distância. Perto o suficiente para eu sentir o perfume dela, baunilha e alguma coisa mais escura. Ela coloca a mão no meu peito, sobre o coração.

“Seu coração está acelerado.”

Ela não tira a mão.

“Você não precisa sair. Tudo o que você precisa está aqui.”

Ela diz isso e eu vejo o que ela quer dizer. Vejo nos olhos dela, na boca entreaberta, na mão que sobe do meu peito para o meu pescoço.

Meu pai sumiu há três meses.

E eu começo a entender que talvez ele não tenha sumido.

Talvez ele tenha sido apagado.



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