Wild Desires

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Published 9/30/2026
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Meu marido dorme com a boca aberta e eu fico olhando para o teto contando as rachaduras. São sete. Uma parece um mapa da Bahia, outra parece um pênis. Sempre achei isso engraçado, mas nunca contei pra ninguém. Tem coisas que a gente guarda só pra si.

O ventilador faz aquele barulho de helicóptero velho, tic-tic-tic, e o calor de fevereiro em São Gonçalo não perdoa. Sinto o suor escorrer entre os seios. Ele ronca. Um ronco de quem dorme tranquilo, de quem não tem nada entalado na garganta.

Eu tenho.

Não é culpa dele. Isso eu preciso deixar claro, mesmo que seja só pra mim mesma, aqui no escuro. Jorge é um bom homem. Trabalha no mercado, chega em casa às sete, come o que eu faço, assiste o jornal, dorme. Repete. Todo santo dia. E eu? Eu também repito. Arroz, feijão, bife, salada. Segunda a domingo. A vida é isso? Alguém me responde.

Ninguém responde. Só o ventilador.

Levanto devagar. O colchão afunda e ele resmunga, vira pro lado, continua roncando. Ando até a cozinha, pé no chão frio, e acendo a luz da geladeira. Não abro ela toda. Só fico ali, com a porta entreaberta, olhando a claridade amarela que sai de dentro. Tem uma cerveja no fundo, atrás do leite. Eu não bebo cerveja. Comprei pra fazer bolo de chocolate, receita da minha mãe, mas nunca fiz. A garrafa tá lá, gelada, me julgando.

Pego ela. Abro com o abridor que tá preso na parede, do lado do fogão. O barulho do metal arranhando o metal me dá um arrepio. Bebo direto do gargalo. Amargo. Não gosto. Bebo mais.

A janela da sala dá pro muro do vizinho. Se eu subir na pia, consigo ver o quintal deles. Não que eu faça isso. Já fiz. Uma vez, duas, umas seis. Tem uma piscina de plástico, dessas de criança, e um pé de manga que dá manga doce. A mulher, Dona Cida, estende roupa de manhã cedo, cantando hino. Ela canta bem. Eu fico ouvindo, escondida atrás da cortina, e sinto uma inveja que não sei explicar. Não é da voz. É de outra coisa. Da certeza que ela tem. Da fé. Daquela paz de quem sabe que vai pro céu.

Eu não sei pra onde vou.

Volto pro quarto. Jorge tá na mesma posição. A boca aberta, o braço jogado pra fora da cama. Penso em acordar ele. Penso em fazer o que fiz na terça passada, quando ele chegou do trabalho e eu tava só de camiseta, nada embaixo, e ele nem olhou. Passou direto, foi tomar banho, e eu fiquei ali, plantada na sala, com a camiseta e a vergonha.

Na terça eu chorei no banheiro. Hoje não. Hoje eu bebo cerveja morna e olho pra ele e sinto uma coisa que não é raiva. É mais fundo. É como se eu fosse um móvel. Um móvel bom, bem cuidado, mas móvel. A pessoa passa a mão, limpa o pó, e segue a vida.

Sento na beirada da cama. Ele se mexe. "Que horas são?", ele pergunta, sem abrir os olhos.

"Duas e pouco."

"Volta a dormir, mulher."

Volta a dormir. Como se fosse simples.

Deito de novo. O teto. As rachaduras. A do meio parece um olho. Fico encarando o olho. E o olho me encara de volta. Você tá viva ainda?, ele pergunta. Tô. Infelizmente, tô.

De manhã, o sol entra pela fresta da cortina e corta o quarto em dois. Jorge já foi. Deixou a cama desarrumada, o copo de água na mesinha, a toalha molhada em cima do travesseiro. Reclamo sozinha, em voz alta, porque falar com as paredes é o único jeito de ter uma conversa nessa casa.

"Toalha molhada em cima do travesseiro, Jorge. É pedir muito?"

O travesseiro não responde.

Tomo banho. A água fria me acorda de verdade. Me olho no espelho embaçado, passo a mão, e me vejo. Trinta e quatro anos. Cabelo castanho, comprido, um pouco sem vida. Olheiras. Seios ainda bons, isso eu admito. Barriga com uma dobra que antes não tinha. Culpa do pão. Culpa do Jorge. Culpa de ninguém.

Visto uma calça jeans e uma blusa branca. Simples. Vou trabalhar. Sou caixa de supermercado, no Extra da Alameda, das oito às cinco. Bato o ponto, coloco o colete verde, e o dia começa.

E é aí que ele aparece.

Ele já veio outras vezes. Sempre de manhã. Sempre comprando pouca coisa. Um pote de iogurte, um pacote de biscoito, uma água. Paga com cartão, olha nos meus olhos, e diz obrigado com uma voz que faz a minha nuca formigar. Não é bonito de revista. É bonito de outra forma. Tem uma cicatriz na sobrancelha, o cabelo meio grisalho nas têmporas, e as mãos grandes, com veias saltadas. Mãos de quem trabalha com as mãos.

Hoje ele traz uma cesta cheia. Arroz, feijão, macarrão, leite, ovos, sabão em pó. Compras do mês. Olho pra ele.

"Vai fazer feira grande hoje?"

Ele sorri. "Minha mãe tá na minha casa. Ela acha que eu não como."

"E você come?"

"Quando tem alguém pra fazer."

Passo os produtos. O leite. Os ovos. O sabão. Ele olha pra minha mão esquerda, pro anel. Eu vejo ele olhando. Ele vê que eu vi. Nenhum dos dois disfarça.

"Quanto deu?"

"Cento e quarenta e dois, oitenta."

Ele paga. Pega as sacolas. E antes de sair, ele para. Se vira. "Você tem um sorriso bonito. Devia usar mais."

E vai embora.

Fico com o cartão dele na mão, esperando a máquina imprimir o comprovante. Meu rosto tá quente. O comprovante sai. Eu leio o nome. Davi Almeida Souza. Guardo o papel no bolso do colete, em vez de jogar no lixo, e não sei por quê.

O resto do dia passa devagar. Atendo senhora, atendo criança, atendo bêbado. A fila não acaba. Mas a minha cabeça tá longe. Tá no sorriso dele. Tá no jeito que ele falou. Devia usar mais. Ninguém nunca me disse isso. Nem Jorge. Nem no dia do casamento.

Chego em casa às seis. Jorge tá no sofá, com o controle na mão, vendo futebol. "Oi", ele diz, sem olhar.

"Oi."

Vou pra cozinha. Faço o jantar. Arroz, feijão, bife, salada. A mesma coisa de sempre. Corto a cebola e choro. Não é pela cebola. Bom, um pouco é. Mas não só.

Janto com ele na sala, os dois olhando pra TV. Ele comenta um gol. Eu concordo. Ele pergunta se tem sobremesa. Eu digo que não. Ele diz tá bom. E a noite se fecha em cima da gente como uma tampa.

Na cama, ele dorme antes de mim. Sempre dorme antes. Fico olhando as rachaduras de novo. O olho do teto me pergunta. E agora, o que você vai fazer?

Não sei. Mas pela primeira vez em muito tempo, tem uma coisa me dizendo que alguma coisa vai acontecer. Não sei o quê. Não sei se é bom. Mas tá vindo. Sinto no estômago, tipo frio de medo, tipo frio de expectativa. São a mesma coisa, no fim.

Fecho os olhos. Penso no nome. Davi. Penso no sorriso. Penso na mão dele, grande, com as veias saltadas, pegando o leite, pegando os ovos, pegando o sabão. Penso em como seria essa mão em cima da minha.

Abro os olhos. Jorge ronca. O ventilador tic-tica. O teto me encara.

Amanhã ele volta. Ele sempre volta. E eu já sei o que vou usar. A blusa azul, aquela que aperta um pouco, que Jorge disse que tá pequena. Vou usar. Porque eu decidi uma coisa, aqui no escuro, com o coração batendo rápido: se ele aparecer de novo, eu vou falar mais. Vou perguntar da mãe dele. Vou sorrir. Vou usar o sorriso que ele disse que é bonito.

E se isso for errado, que seja.

Pelo menos é alguma coisa.



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