Acobreado e Salgado

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Published 8/17/2026
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O mar estava calmo quando eu acordei. Não o barulho das ondas, quero dizer. O mar estava calmo dentro de mim, aquela sensação de paz que só vem depois de uma noite inteira olhando para ele sem pensar em nada.

Eu estava deitado no chão de terra batida, perto do trapiche abandonado, com o chapéu velho cobrindo o rosto para proteger os olhos da luz que já começava a esquentar. Minha camisa bege estava amassada, cheia de areia, e eu sentia o gosto de sal nos lábios.

Ouvi passos antes de ouvir a voz.

“Cobre!”

Era Boa Vida. Eu reconheci o jeito dele de pisar, meio arrastado, preguiçoso, como se o chão fosse um incômodo desnecessário.

Não respondi.

“Cobre, pelo amor de Deus, você dormiu aqui de novo?”

Ele puxou o chapéu do meu rosto. A luz do sol bateu direto nos meus olhos e eu precisei de uns três segundos para lembrar onde estava. O trapiche. A areia. O mar. Certo.

“Bom dia”, eu consegui dizer, com a voz rouca, parecendo que tinha engolido um pedaço de papelão.

Boa Vida me olhou com aquela cara de quem já tinha desistido de entender minhas escolhas. “Você é maluco. Dormiu no chão. De novo.”

“O chão é macio”, eu falei, sentando devagar. A cabeça rodou um pouco. Sempre rodava de manhã, como se meu cérebro precisasse de uns minutos para lembrar como funcionava. “E o mar estava bonito ontem. Não dava pra ir embora.”

Ele bufou. “O mar não vai fugir, Cobre. Você podia ter dormido no colchão que nem gente.”

“Gente é superestimado.”

Boa Vida riu, mas era aquele riso cansado de quem já tinha ouvido essa piada umas cinquenta vezes. Ele estendeu a mão e me puxou para cima. Minhas pernas estavam dormentes. Eu tropecei nos primeiros passos, quase cainde de cara no chão, e Boa Vida segurou meu braço.

“Você acorda igual um bêbado”, ele disse.

“Obrigado.”

“Não foi elogio.”

Eu sabia. Mas não ligava.

Nós voltamos para o trapiche grande, onde o resto dos meninos estava acordando. O Sem-Pernas já tinha acendido o fogo para esquentar alguma coisa. O Gato estava sentado num canto, amolando um canivete na perna da calça. O Professor lia um jornal velho que tinha encontrado não sei onde.

E o Pedro Bala estava perto da porta, olhando para o mar.

Ele sempre olhava para o mar de manhã. Como se estivesse procurando alguma coisa lá longe. Uma resposta, talvez. Ou um barco que nunca chegava.

Quando eu entrei, ele virou a cabeça. Nossos olhos se encontraram por um segundo. Dois segundos. Talvez três.

Depois ele desviou o olhar.

Ninguém notou. Ninguém notava essas coisas. A gente tinha aprendido a esconder bem.

“Dormiu fora de novo, Cobre?” A voz do Sem-Pernas veio do lado do fogo, com aquele tom de provocação que ele usava quando queria me zoar.

“Dormi.”

“Onde?”

“No trapiche velho.”

Ele riu. “Um dia a gente vai te achar dormindo dentro do mar.”

“Já pensei nisso”, eu falei, sentando perto do fogo. “Deve ser gostoso.”

O Gato levantou a cabeça do canivete. “Você é doido.”

“Já ouvi isso hoje.”

A manhã seguiu normal. Cada um foi fazer suas coisas. Alguns foram pedir esmola no Pelourinho. Outros foram ver o que tinha no mercado. Eu fiquei por perto, ajudando o Professor a separar umas coisas que ele tinha achado no lixo do porto.

Papéis velhos. Uma caneta quebrada. Um pedaço de pano que dava para aproveitar.

Nada de muito valor. Mas a gente não podia desperdiçar nada.

O Pedro Bala não foi com os outros. Ele ficou no trapiche, andando de um lado para o outro, com aquela inquietação que ele tinha quando alguma coisa estava mexendo na cabeça dele. Eu conhecia aquele jeito. Ele estava pensando em alguma coisa, planejando alguma coisa.

Eu só não sabia o que.

No fim da tarde, o sol já estava mais baixo, e o calor tinha dado uma trégua. Eu estava sentado na beirada do trapiche, com os pés balançando sobre a água, quando senti alguém se sentar do meu lado.

Não precisei olhar para saber quem era.

“Você tá quieto hoje”, o Pedro Bala disse.

“Tô sempre quieto.”

“Não. Você tá mais quieto que o normal.”

Eu olhei para ele. O sol batia de lado no rosto dele, iluminando os olhos escuros. Ele tinha uma expressão séria, mas não era daquelas sérias que afastavam as pessoas. Era o tipo de seriedade que fazia a gente querer ficar por perto.

“Tô pensando”, eu falei.

“No quê?”

“No mar.”

Ele riu baixo. “Sempre no mar.”

“É bonito.”

“É.”

Ficamos em silêncio por um tempo. As ondas batiam nas pedras lá embaixo. Um barco passou longe, com as velas brancas contra o céu alaranjado.

“Você já pensou em ir embora?” eu perguntei, sem olhar para ele.

“Ir pra onde?”

“Não sei. Longe. Ver outros lugares.”

Ele demorou para responder. “Já. Mas não agora.”

“Por quê?”

Pedro Bala virou o rosto para mim. Os olhos dele encontraram os meus. Dessa vez, ele não desviou.

“Porque tem coisa aqui que eu não quero deixar.”

Meu coração deu uma batida mais forte. Eu senti o calor subir pelo pescoço.

“Que coisa?” eu perguntei, mesmo sabendo a resposta.

Ele não respondeu com palavras. Ele colocou a mão no meu queixo, virou meu rosto na direção dele, e me beijou.

Não foi um selinho. Não foi rápido. Foi devagar, demorado, como se ele estivesse provando alguma coisa que queria guardar para sempre. A mão dele escorregou para a minha nuca, os dedos enroscando no meu cabelo ruivo. Eu fechei os olhos e deixei o beijo acontecer.

Quando a gente se separou, os dois estavam sem fôlego.

“Isso”, ele falou, com a voz mais baixa do que antes. “Isso é o que eu não quero deixar.”

Eu não soube o que dizer. Então eu beijei ele de novo.

Dessa vez foi mais intenso. A mão dele apertou minha nuca, a minha mão segurou a camisa dele, puxando ele para perto. A gente se beijou como se o mundo fosse acabar na próxima onda.

Quando paramos, o sol já estava quase se pondo. O céu estava vermelho, laranja, roxo. Bonito que nem uma ferida.

“A gente precisa parar de se esconder”, eu falei, sem pensar.

Pedro Bala me olhou. “Eu sei.”

“Não é justo.”

“Eu sei.”

Ele passou a mão no meu rosto, devagar, como se estivesse memorizando cada pedaço. “Mas não é agora. Não ainda.”

“Quando?”

“Quando eu conseguir te dar alguma coisa que não seja só esconderijo.”

Eu engolii seco. “Eu não preciso de nada.”

“Eu sei. Mas eu quero dar.”

A noite caiu. A gente ficou sentado na beirada do trapiche até as estrelas aparecerem. As mãos quase se tocando. Quase.

Mais tarde, quando todo mundo já tinha dormido, eu deitei no meu colchão e fiquei olhando para o teto. O Pedro Bala estava do outro lado do trapiche, longe o suficiente para ninguém desconfiar.

Mas eu sentia o gosto dele ainda nos lábios.

E sabia que não ia conseguir dormir.

No dia seguinte, iam me achar dormindo em cima do telhado. Com um sorriso no rosto. E ninguém ia entender por quê.



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